Antônio e Luís estão sentados no mesmo sofá. Numa sala pequena, suja e escura. Há também outra poltrona num canto, um telefone fora do gancho, um computador ligado. Muitos livros e cd’s jogados no chão. Revistas recortadas, álbuns de fotografia. Uma garrafa de vinho pela metade. Velas acesas espalhadas na sala toda. Antônio, muito encasacado e ainda um pouco encolhido de frio, segura com as duas mãos um copo de onde sai uma fumaça. Toda hora da algumas bebericadas. Olha o conteúdo do copo. Sua mente voa longe, num lugar tenso e cheio de dúvidas. Quando não está olhando o copo, olha para Luís.
Luís está bastante a vontade, mesmo com o frio. Tem também um copo em sua mão. Não tira os olhos de Antônio. O encara com tranqüilidade e confiança. Como se tivesse um plano e tudo corresse bem.
Antônio – então talvez o meu dever seja achar bonito aquilo que você acha bonito.
Luís – Ou talvez o seu dever seja permitir achar o que quiser achar.
Antônio se sente cada vez mais derrotado. Derrete dentro dos seus casacos. Luís se alimenta do desânimo de Antônio.
Luís – não quero ninguém achando o que eu acho. As minhas construções levaram tempo, me custaram muita coisa.
Antônio começa a chorar.
Luís – Pais e filhos não são amigos. Você vêm de mim, é uma criação minha. Não existe diferença nenhuma entre você e as fotos que eu tiro, ou os quadros que eu pinto. Cada vez que eu vejo você assim sinto que estou falhando. Mas não posso interferir na sua vida. É por isso que preciso que você vá embora.
Antônio ouvindo isso passa a chorar mais desesperadamente. Luís levanta.
Luís – cada um aqui tem a sua vida. A minha não é a sua.
Luís sai da sala. Antônio está tão desolado que parece ter tomado um tapa na cara. Seu corpo dói como se fosse uma gripe, seu nariz escorre e gela sua boca. Escuta o próprio coração, escuta a respiração... Meu Deus! Tem a impressão de que se demorar um pouco mais, se fizer mais força, se afundar mais em si mesmo, se isso ajudar, poderá até ouvir suas células envelhecendo.
Já faz tempo que se sente assim. Cada segundo leva um ano para passar, ele sente seu sorriso doendo no rosto, mesmo assim ele sorri. Ali, sozinho naquela sala que só de olhar da a impressão de cheirar mal. Não tem nada mais a fazer a não ser levantar. Dói, demora e pesa. Mas ele levanta.
Antônio caminha na rua, é cedo, o sol está nascendo. Ele usa as mesmas roupas de antes, agora um pouco mais amassadas. Seu cabelo comprido está muito sujo. Como se isso fizesse alguma diferença nas coisas que acontecerão nas próximas horas. Se Antônio tivesse coragem alguma pra articular, diria o quanto isso dói nele, o quanto ele espera que isso acabe de uma vez. Mas também, ele lhe contaria que já sabia que tudo isso ia acontecer. Ninguém avisou, ele descobriu sozinho. Não é um gênio. Mas também, nem foi tão difícil assim, os olhares lhe contaram tudo.
Aquele cheiro de seis da manhã na rua sempre encantou ele. Algumas pessoas andam com caras de sono, indo ao trabalho. A essa hora, ninguém quer papo, nem dá bom dia, nem sorri. É cada um por si, como seu pai lhe disse. Como tem que ser. Essa é a sua hora favorita.
Antônio para diante de um prédio muito velho. Procura nos bolsos a chave e abre a porta. A porta pesa, ele se joga contra ela, apóia sua cabeça no ferro frio e sujo. O normal seria ele sentir nojo do ferro. De todas as doenças que ele pode pegar daquele ferro, do tétano. Mas e daí? Se ele ficar doente não é seu pai que vai lhe pôr na cama, não é? Isso, já está definido, então não interessa. Deite a cabeça contra o ferro Antônio, esfregue o rosto nesse ferro sujo. Deseje que o ferro lhe contamine e você morra
Em cinco minutos deu tempo de subir as escadas, entrar no apartamento, ir ao quarto, colocar os livros na mochila, passar na cozinha e pegar o café e o bolo e descer. A aula começa em quinze minutos.
Ir para o colégio provavelmente é a parte mais triste do dia. Fazer o mesmo caminho todos os dias. Com a mesma roupa, ver as mesmas pessoas, passar na frente da loja de móveis usados e ver os mesmo móveis. A sua antiga poltrona de leitura. E Antônio sempre passa pela poltrona e sempre pensa – eu apaguei o meu primeiro cigarro no forro dessa poltrona – e ninguém quer comprá-la, ela está um lixo, por isso está lá. Então ele segue, e sobe a rua, e entra na escola, e se dirige a sala e senta na sua carteira.
Detesta cada um de seus colegas. Todos juntos podiam queimar vivos, ele assistiria. Mas hoje não vai se chatear com isso, essa é a última vez que vê eles. Dá até para apreciar uma coisas dessas.
Um menino senta ao lado dele para copiar o seu caderno. Não pede, não diz nada, só pega o caderno e começa a copiar. Antônio o encara, dentro de sua cabeça ele está segurando o menino pelos cabelos, batendo seu rosto contra a carteira, vendo seu nariz sangrando e entrando cada vez mais no rosto. Quanto mais entra, mais o menino grita e com mais força Antônio arremessa seu rosto contra a carteira.
A aula é de literatura pelo menos. A professora é linda. É a criatura mais linda do mundo. Antônio põe o livro na mochila e observa a professora. Ela senta na ponta da mesa e fala sobre todas as coisas que sabe. Ninguém dá bola. Nem ela dá bola, faz isso com um desdém tão grande que Antônio não consegue não se sentir atraído por ela. A maneira como ela sabe que todos ali não estão nem aí pra literatura. A maneira como ela decide que vai sentar na ponta da mesa e dizer tudo o que sabe pra quem quiser ouvir. Antônio passa os cinqüenta minutos da aula passeando seus olhos pelo corpo dela, narrando na sua cabeça tudo o que quer. Ela sabe.
É a única que conversa com ele, que sabe das coisas que ele gosta, as musicas que ouve, os livros, os filmes. Ele leva de lanche os iogurtes que ela gosta, mesmo tendo pedaços amargos de fruta dentro, ele os bebe para que ela veja ele bebendo. Eles dividem o iogurte.
Na maioria das vezes Antônio faz seu lanche com sua prima Irís. Ela tem dez anos a menos que ele, mas é melhor comer com ela do que com seus colegas. Sentam bem no centro do pátio, abrem seus potes com bolo e sanduíche. Colocam tudo sobre os cadernos, têm um piquenique para dois bem no meio do colégio, para todo mundo ver. São vinte minutos do dia nos quais Antônio se sente um soldado rebelde correndo contra a própria infantaria com seu florete na mão. As vezes se imagina todo vestido de vermelho com uma estrela e uma foice estampadas nas costas. Só pra provocar. Mais nada.